No início deste ano tive de viajar para os Estados Unidos a trabalho. Sempre me considerei uma pessoa livre de preconceitos - até aquele momento. O país inteiro comentava a reeleição de George W. Bush. Interessante ver um americano discutindo política. Principalmente porque boa parte do grupo não tinha votado por ter esquecido (!) no dia.
Sim, lá as pessoas se registram para votar, mas o dia da eleição é igual a todos os outros e não um feriado como no Brasil. Como todos estavam trabalhando, simplesmente esqueceram que aquele dia era de definição para o futuro de seu país. Talvez do mundo.
Estava eu no aeroporto de Detroit, esperando um vôo para Washington que chegaria no mesmo momento em que o presidente reeleito faria seu discurso de posse. Um frio de menos 15 graus congelava qualquer coisa. Até pensamento. Tudo ia bem. Até que, subitamente, vários muçulmanos (mais de 30) em roupas típicas, adentraram o saguão. Foi o suficiente para transformar um momento tranqüilo em pura apreensão.
O aeroporto simplesmente parou. Nunca passei tão rápido por uma revista pré-embarque. Todos os presentes na fila apenas comentavam que estavam com medo do que o novo grupo trazia nas mãos - um envelope transparente recheado com líquido idem. Para o guarda, alegaram ser água benta que levariam de volta para seu país.
Tranqüilo? Só pensava em porque raios não havia vôos diretos de Detroit para o Brasil e outros países. Seria o suficiente para não ter de ir até Washington trocar de vôo. O grupo iria sabe-se lá pra onde, direto. Eu viria para meu país e não teria de passar por aquela situação de dividir o vôo.
Quando dei por conta de mim, estava a bordo de um pequeno jato fabricado pela nossa Embraer, acompanhado de parte do grupo muçulmano. Estar ali, junto deles, naquele momento, com toda a paranóia que permeia os dois povos, foi extenuante. Pensar que, a qualquer momento, um deles poderia levantar, sacar sua “água benta”, seqüestrar a aeronave e jogá-la sobre a Casa Branca não foi fácil. Afinal, o vôo deixava a cidade-símbolo da revolução industrial americana, o orgulho da produção automotiva do país e se dirigia para a capital, no mesmo momento do discurso do inimigo número um daquela religião. Mesmo sabendo que eles passaram até por “cavity search” (que também não é justo, mas isso é tema para outro texto), não há como não temer.
Você, caro leitor, há de convir que não é fácil deixar os preconceitos e o medo de lado nesses casos. Principalmente por não saber por que alguém precisava levar água benta de um país para outro.
E se eles seqüestrassem o avião? Depois de tantos anos defendendo as atitudes (lamentando a perda de mortes civis que nada têm a ver com a discussão), como eu reagiria? Criticar a prepotência americana é uma coisa, mas ceder à vida em prol de uma causa e de uma briga que não é minha é outra.
Enfim, nada aconteceu e um sentimento estranho ficou. É fácil criticar os outros, o difícil é sentir na pele. Principalmente sabendo pelo noticiário que alguns aviões sofreram tentativa de seqüestro naquele exato momento em que eu estava voando.
18 de Dezembro de 2005
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