
Saiam de casa - PCC liberou o banho de sol
São Paulo parou e o mundo acompanhou pela TV. Delegacias invadidas, ônibus ardendo em chamas, toque de recolher, guerra civil. Os celulares pararam tamanha foi a histeria causada pelas lastimáveis cenas de violência na televisão. Todos ligavam para todos perguntando como estava a situação. A sensação era que o governador poderia ser deposto e que uma bala perdida acharia cada pessoa que você conhece. Nenhum lugar fora a sua casa era seguro e todos deveriam abandonar o trabalho. A notícia geral era que às 20h o PCC – o Primeiro Comando da Capital, principal facção criminosa de São Paulo – declarou toque de recolher para todas as pessoas.
O tumulto acabou. Alguns dos ônibus queimados foram vítimas de cooperativas de táxis que pagaram desocupados para aproveitar a ocasião (!). Nem todas as cidades do estado tiveram invasões, como anunciado, e nem mesmo quebra-quebras em lojas ou supermercados, diferente da notícia que circulou no fim de semana dos atentados. Foi o caos.
Brilhante a cobertura da “imprensa”. Talvez lembre um pouco o que aconteceu com o Rio de Janeiro na época dos arrastões. Claro, um problema sério. Mas, nem todo carioca vivenciou um arrastão. Todo paulista ou mineiro viu as cenas pela televisão. O medo dos paulistanos e mineiros parecia maior que o dos cariocas. A TV causou mais medo. A cobertura na mídia se repetiu. Foi pior. Continua pior.
Quase três semanas depois da briga entre o PCC e a polícia de São Paulo, me deparei com um helicóptero sobrevoando um pacato bairro de São Paulo. Fiquei ainda mais surpreso ao perceber que a rua estava ao vivo no programa do Datena, na Rede Record. “Olha só como São Paulo está deserta. Não há ninguém na rua!”. Nunca houve ninguém nessa rua! Nem hoje e menos ainda em dias mais tranqüilos. Bairros estritamente residenciais não costumam ter movimento de noite. Não há o que fazer na rua. Num dia de semana então! Essa é a missão da “imprensa” brasileira? Mostrar ruas paradas, de um bairro residencial e dizer que todos estão em casa por causa do PCC? Alardear um toque de recolher que não existiu, mas foi cumprido por quase todos os cidadãos? Alguns poucos tiveram de circular após o horário estabelecido e confessam nunca ter chegado tão rápido ao destino final. São Paulo ficou quase deserta.
O caos foi generalizado, mas os boatos alimentados por programas como o descrito acima conseguiram piorar causando mais medo ainda na população. A internet e os celulares que funcionaram alardearam uma situação pior.
Culpa só da “imprensa”? E a falta de segurança em geral que a população dos grandes centros vive? Receio é normal para quem mora em cidade grande, mas até que ponto? Este texto é um protesto. Depois de indicar para uma amiga que saísse de casa com duas bolsas: “uma é do ladrão, ponha uns trocados e uma carteira de documentos vazia. Pode ficar à vista no carro. Na outra, coloque suas coisas e a mantenha escondida”, recomendei com naturalidade.
Fatos: caos, boatos, acordos por televisão e trocas de camisas, tudo é passado. Como fica a segurança do dia-a-dia? É só lembrar de levar a bolsa do ladrão e ficamos assim? “Acabou” o PCC e fica tudo bom? E nas cidades onde não existe PCC?
Até quando o governo federal vai gastar mais com presos do que com alunos? Um preso custa mais ao Estado para ficar sem fazer nada do que um aluno que acaba não fazendo nada por falta de recursos. Essas são as políticas de segurança e educação nacionais?
Este texto foi escrito pouco depois dos ataques do PCC na cidade de São Paulo em 11 de setembro de 2006. O ocorrido é lembrado no filme “Salve Geral”, em breve num cinema perto de você. Esperemos que o já nomeado candidato brasileiro ao Oscar não seja um filme que venha a enaltecer criminosos, que podem gerar mais crimes, que gerariam novos filmes. Eles se vangloriam de ter seus nomes no noticiário ou em filmes. Acham que isso lhes dá status. Há coisas que não devemos esquecer e, menos ainda, enaltecer. Quem sabe você não lembra disso na próxima vez em que for votar?








